Tema da Semana

Uma coisa que me irrita... Semana passada tiramos um recesso... e como sempre existem coisas que nos irritam... o que mais te irrita??

quinta-feira, 14 de junho de 2007

O piquenique

Eu não sou violento. Nunca briguei no colégio, nunca discuti no futebol, nunca buzinei no trânsito; e sempre levei desaforo pra casa. Um plácido. O que não significa, necessariamente, que, vez ou outra, uma situação ou um indivíduo não me tenham deixado com os nervos à flor da pele. Aí conto até três, penso nos peixes do aquário que dependem de mim e relevo os desagravos. Sorte do mundo.

Só que até as paciências monastéricas têm limite. A minha, Deus a tenha, foi esfarelada pela febre do Pan-Americano. Isso não é nem uma competição, é um imenso piquenique das Américas, uma festinha para sacudir a vida do público, da imprensa e dos atletas medíocres. E a alegria forçada com que a mídia trata o Pan? E a polêmica em torno da música que a Dayane dos Saltos vai usar? E os heróis que cortavam cana no interior de Shangri-lá, começaram a correr descalços na estrada de terra e hoje – como é forte o brasileiro – são maratonistas profissionais? Meu estômago.

O frenesi em torno do Pan expõe um aspecto irritante do brasileiro. Essa incrível facilidade – catalisada por boas doses de ignorância e de ingenuidade – de se deslumbrar e deixar-se iludir por qualquer ninharia, qualquer acontecimento de meia-tigela. O Pan-Americano é um evento desenxabido, esnobado pelos atletas de renome, irrelevante esportivamente e, por conseqüência, insuportável para quem assiste. Só não enxerga assim quem se entrega ao clima de euforia artificial.

Esse Pan vai servir pra duas coisas, e ambas, eu sei que será assim, vão me fazer perder as estribeiras: 1) Pipocarão, na TV e nos jornais, histórias de atletas brasileiros que superaram as adversidades da vida sofrida para brilhar na competição continental. Nossos heróis. 2) O Rio de Janeiro, não bastasse a novela das oito, será incansavelmente mostrado como o paraíso na Terra, o Éden, a obra-prima do Altíssimo, sem igual em todo o globo. Só que ganhar uma medalha no Pan, torneio de galinhas mortas, não é façanha nenhuma. E o Rio cai pelas tabelas.

Quando a tocha do Pan-Americano passou por Brasília, juro que tentei apagá-la, comprei um monte de copinhos d´água, arremessei todos eles freneticamente. Não deu. Talvez tenha sido um recado divino. Talvez eu esteja sendo muito radical com o Pan, subestimando a glória que é para um país recebê-lo. E quem sabe a capacidade de se iludir não seja, ao contrário do que o rabugento disse, a maior virtude do brasileiro? Pode ser. O Rio continua lindo. E viva a Dayane dos Saltos.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Bendito seja o meu sorvete!

Nossa! Missão difícil essa. Na verdade, são tantas coisas que nos irritam. Mesmo porque fazemos parte de uma espécie de seres vivos essencialmente reclamona. Mas uma coisa em especial, ou outras derivadas disso particularmente funcionam como um estridente peteleco na pontinha da orelha. A incrível mania que as pessoas têm de quererem levar vantagem em tudo por exemplo. Se o meu sorvete de chocolate veio 0,5 centímetro maior que o seu não é culpa minha, é do sorveteiro que deve ter ido com a minha cara, em detrimento de, sei lá, tirar um sarro com a sua ou mesmo porque acabou sorvete justo na sua vez!. Não que eu seja um sujeito totalmente inspirado e abençoado pela cartilha comunista ou socialista que o seja, e queira viver para sempre com meus adoráveis “irmãos” (e irmãs) barbudos num sistema social de mútua e incessante predominância do coletivismo levado ao extremo da burrice. Não. Não mesmo. Mas que me irrita pensar que tantos conflitos em maior ou menor complexidade ainda que a do caso do sorvete poderiam diminuir drasticamente ou deixarem de existir se não olhássemos tanto para os próprios umbigos, ah, isso me irrita.

Tirar vantagem em tudo sempre foi uma prática desagradável que acaba tornando-se algo pior quando não controlada e em excesso. Talvez o que mais me irrita nessas pessoas seja justamente o que essa conduta pode causar nessas indesejáveis pragas portadores desse terrível mal: uma asquerosa patologia social, que me dá até vergonha de mencioná-la (se não fosse o desserviço que cumpro como escritor), de nome bastante peculiar, chamada PRECONCEITO. Não estranhem o tamanho das letras. Assim deve ser proferido, em alto, bom som e letras garrafais, que é para chocar mesmo e doer bem aos ouvidos e olhos que captam tamanho palavrão. Mal sabem muitos dos senhores sentados aí do alto de suas cadeiras móveis, banquinhos desconfortáveis ou até engradados de Guaraná a frente de suas revolucionárias máquinas virtuais, que a estranha mania de levar vantagem em tudo pode resultar em preconceito. Longe de mim querer ser um bispo moralista ou muito menos um pastor eufórico. Acalme-se. Apenas sinto asco por esses tais preconceito racial, religioso, sexual, social ou preconceito qualquer que o seja.

De novo voltemos ao exemplo do sorvete. O fato de o outro freguês querer levar vantagem sobre mim, reclamando ou pedindo um sorvete maior não o faz medíocre por isso. Mas pode fazê-lo perconceituoso quanto ao sorveteiro, um mero trabalhador que, aos olhos do reclamador, não é digno por vender sorvetes, ser pobre ou inferior a ele. E até preconceituoso à minha pessoa, que nada teve a ver com sua revolta, ainda mais se eu tiver pele escura, for japonês, nordestino ou até portar um turbante como alguns muçulmanos.

Definitivamente, estamos sujeitos todos os dias a nos surpreender com tanta coisa a nosso redor! Sinceramente sempre duvidei que um estadunidense fosse capaz de fazer um filme como “Crash- No Limite”. Para quem nunca viu, esse pequeno espetáculo da cinematografia recente nos brinda com não somente uma, mas várias histórias de pessoas vítimas dos mais diferentes e, ao mesmo tempo, mais rotineiros preconceitos sociais que convidam norte-americanos todo instante a compartilharem do show de humilhações a que um ser humano nunca poderia se submeter. Mas exatamente por essas pessoas que nos surpreendem existirem, devemos acreditar que essa doença um dia terá seu fim. Será? Acho muito improvável. Afinal de contas, que mal faz zombar de alguém por ter certa cor de pele, ser de certa nacionalidade, ter determinada religião ou um sorvete mais convidativo que o meu. Pois é dessa maneira que criminosos preconceituosos pensam. Vão em frente, mas por favor, mantenham distância e, de preferência, fiquem a uma certa altura da qual meu sorvete possa lhes incobrir, gelado e insubmisso.