Pergunta difícil essa que nossa equipe de jovens escritores nos propõem, não? Perguntinha capciosa que, nas mentes de muitos filósofos antigos ou bêbados de toda a história etílica que perpassa a humanidade, foi e ainda é motivo mais do que certo para se iniciar um grande conflito, nas milhares de praças espalhadas por aí, seja nas democráticas da Grécia Antiga ou nas com cheirinho de cana do nosso Brasilzão. Para o primeiro, porque tratava-se de um desafiante embate existencial que ele travava com suas próprias entranhas de velhinho pensador (será por que quando pensamos em filósofos só nos vem à cabeça essa imagem?). Para o segundo, pois este é tão orgulhoso do líquido sublime que, em grandes quantidades, a tudo arrebata, que consegue deixar até nossos queridos bebuns confusos quanto à exata origem de suas pessoas. Pois bem, tanto papo furado para dizer que posso ser assim comparado a esses pobres mortais. Às vezes posso parecer tão racional quanto o sábio filósofo de longas barbichas brancas e, ao mesmo tempo, confuso e perdido como nosso peculiar tipo brasileiro, o pinguço doidão. Ou melhor, quase um camaleão que metamorfoseia com o passar dos tempos e se identifica com diferentes estilos e culturas.
Desde pequeno, quando me esbaldava do caldeirão de ricas experiências populares que o interior me proporcionou em vida sã e digna (a infância), já buscava explicações para o fato de aquele menininho querer passar a menininha para trás com suas brincadeiras maldosas na hora do recreio ou para a ocasião em que meu pai insistia em pechinchar o preço do doce de leite no mercado a menos da metade do preço. É, senhoras e senhores, são os mistérios da curiosa vida na qual investem suas fichas as sagazes almas humanas. E esse é o verdadeiro espetáculo de personagens que em tudo querem se sobressair, seja na escola ou na feira. Não que meu antiqüíssimo coleguinha (deve estar convencendo alguém a ser feliz para sempre com ele, nesse exato momento) ou, muito menos, meu paizão (o qual me ensinou o dever de ser honesto e cultivar a semente do respeito mútuo), sejam personas non gratas para este humilde jornalista (ainda estudante) com pinta de escritor frustrado que vos fala. Na verdade, esses pequenos detalhes matreiros, inerentes à condição humana, são mais que normais e rotineiros. Eu também sou assim. Da simples e necessária entrevista de emprego à luta homérica para ter meu texto aceito por meus editores (eternos companheiros de toda a vida), estou eu lá, a torcer pelo justo reconhecimento.
Na verdade, mais que isso tudo, a necessidade de se fazerem cumprir as exigências morais e éticas, que nem o são para todos, quase que se afigura como uma guerra interminável para mim. Não no sentido de não mexer com a mulher do próximo (o que não faço), mas sim no sentido de não precisar de blefar para ganhar. Estou falando de se sagrar campeão com as mãos limpas. Podem até estarem suadas de tamanho desprendimento físico. Mas limpas, sempre. Assim tento ser. Faço questão de sorrir como o jovem que descobriu que é homem, indiscriminadamente, para todos. Esforço, nem sempre consigo. O porteiro me sorri, a dona do salão de beleza às vezes, os amigos, poucos, sempre (ainda bem!). Se não fossem por essa pequeninas demonstrações de amor ao próximo!
De tão humano, sou bobo. Um bobo que ainda acredita no valor humano. E em que um dia ainda possamos conviver mouros e cristãos, judeus e árabes, católicos e protestantes, brancos e negros, miseráveis e trilhardários, bonitos e meia-bocas, honestos e ladrões. E porque não, também casais de mesmo sexo, travestis, prostitutas, leprosos, mendigos, índios, amarelos, russos, neozelandeses, orientais e ocidentais? Nossos líderes terão a responsabilidade de nos dizer. Mas também seremos culpados por algo dar errado. Hoje não cumprimentei, despercebido, o vigia do meu departamento na faculdade. O dia em que ele mais não olhar minha bicicleta, terei de arcar com as consequências de minha imprudência companheirêsca. Deve estar se perguntando: esse simpático moço, preocupado com causas sociais e com pinta de bom samaritano existe? Pior que sim. Não por ser tão preocupado, mas por me perder por isso às vezes, ou quase sempre.
Assim sou eu. Ou tento ser. Amante de boa música (a que se canta com o coração e que se toca com o primor da natureza quebradiça da paciência dos jabutis), que curte comer doce de laranja da vovó, gosta de cafuné da irmã e admira seus pais. Ah, e ainda acha que será aquele trouxa, ao qual lhe será legada a tarefa de servir ao Quarto Poder, não o moderador, mas o pentelhador. O de jornalista mesmo. E para esta última, acredito piamente no já, adormecido pelas trombetas fúnebres do fim dos dias, saudoso Chico Science e Poeta dos Mangues:
“Deixai que os fatos sejam fatos naturalmente
sem que sejam forjados para acontecer.
Deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente.
Deixai que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes
como móveis inofensivos para lhe servir quando for preciso
e nunca lhe causar danos, sejam eles, físicos, morais ou psicológicos.
(Corpo de Lama)
Tema da Semana
Uma coisa que me irrita...
Semana passada tiramos um recesso... e como sempre existem coisas que nos irritam... o que mais te irrita??
sexta-feira, 18 de maio de 2007
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